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Falando sozinha

cada maluco com a sua mania

Fernanda Samico

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March 15

Alice e o átrio

Ao passar pelo porta de entrada do que parecia ser uma pequena casa, Alice deparou-se com um espaço amplo, como um átrio. Era uma área em meia lua, bordeada de plantas tão verdes que saltavam os olhos. No meio deste átrio havia uma fonte e na mesma direção uma escada que dava acesso ao segundo andar.
 
Como uma lufada de vento, o motoqueiro-cavalheiro pegou Alice no colo, com cuidado para cubrir com a já surrada camisola partes do seu corpo que, cavalheiro que era, imaginara que a dama não gostaria de expor. "Dona Bienvenue!" ele chamou. "Dona Bienvenue!"
 
Logo Alice percebeu a sombra de alguém saindo da porta que dava diretamente para a escada e logo em seguida pôde enxergar uma mulher de meia idade, um tanto atarracada, com um pano de pratos nas mãos e um sorriso nos lábios. "Ai menino! Já vai!" ela respondeu.
 
"Dona Bienvenue, olha o que eu achei na rua" ele disse, exibindo Alice como se fora um prêmio. "A moça tá com os pés machucados, a gente pode ajudar?" Concluiu, um tanto infantilizado: "E depois a gente pode ficar com ela?"
 
A senhora mais do que depressa desceu as escadas e pediu ao motoqueiro que colocasse "a moça" num banco próximo à fonte. Dando uma olhada nos pés de Alice, ela fazia caretas, como se fossem seus próprios pés os machucados. "Filha, por onde andastes? Seus pés estão como a alma de um poeta!"
 
Divertindo-se com a comparação daquela senhora, Alice respondeu: "Se eu dissesse, a senhora não acreditaria." Com um sorriso nos lábios, tomou fôlego para começar a descrever toda a loucura que começara quando Alice abrira os olhos. Mas antes de articular a primeira palavra, foi interrompida por uma voz que vinha do meio da folhagem densa, bem em frente ao banco em que estava. "Quê que o Angel trouxe?"
 
"Ah, não!" falaram em uníssono Alice e a dona da voz, que tinha lá seus 5 anos, vestia uma blusinha branca com um grande peixe azul estampado e short da mesma cor e respondia pelo apelido de Dadá.
September 13

Alice e a moto

 
A vibração do motor fazia seus músculos tremer. Alice gostava da sensação. Gostava também do cheiro que vinha da jaqueta daquele tão providencial motoqueiro.
A cidade agora havia tomado corpo. Eram casas das mais variadas cores, ruelas estreitas, árvores, crianças brincando... Tudo isso Alice via como um borrão, enquanto tentava, sem sorte, afastar algumas mechas de cabelo que, com o vento, insistiam em cobrir sua visão. 
A moto serpenteava pelas ruas da cidadela. Alice, segurando firme na cintura de seu cavaleiro, tentava manter o equilíbrio. "Ele dirige como um louco!", pensou enquanto outra manobra se anunciava. 
O cabelo do motoqueiro fazia cócegas no rosto de Alice e o cheiro, que ora era suave e ora marcante, despertava nela um torpor muito parecido com a sensação que tivera ao contemplar a visão hipnotizante do pôr do sol naquela janela. A janela que pulara e que fora a saída de seu cárcere, justamente quando já desistira de sair.
De repente a moto parou.
"A moça quer descansar? Tá com uma cara..." Perguntou, com um sotaque divertido, o motoqueiro, enquanto decia da moto.
"A moça tem nome. Sou Alice. Como se chama essa cidade?" Mesmo com um pouco de dificuldade para pôr os pés no chão, Alice não pôde deixar de reparar como o azul do céu casava bem com a camisa do motoqueiro. E seus dentes combinavam perfeitamente com a parede branca de cal da casa onde haviam estacionado.
Enquanto a amparava, ele disse: "Nomes são engraçados. O desta cidade é Agujeros e combina muito bem, já verás. O meu, ainda não sei, não encontrei um que combinasse." Sorriu e meneou a cabeça, como numa brincadeira. "Vem, entra, vamos cuidar dos seus pés.", disse em seguida.
 
February 19

Alice e a cidade

Alice adentrou em uma cidade quando o sol nascia. Depois de correr pela floresta a noite toda, sem dormir, com medo de acordar novamente no quarto. O céu já se cobria de matizes douradas quando ela encontrara um pequeno caminho entre as árvores. Ao percorrê-lo ela notava os primeiros sinais do que seria uma cidade. O caminho, cada vez mais largo e pavimentado, ia ganhando nas suas margens algumas construções. Casas das mais variadas formas, pequenos armazéns, alguns carros estacionados.
 
Cansada, com os pés em frangalhos, Alice sentou-se num meio fio. "Deus, meus pés estão dormentes!" pensou ao observá-los. De fato, seus pés estavam sangrando. "Preciso de sapatos... Preciso de dinheiro para comprar pelo menos uns chinelos... Será que nesse mundo irreal existe dinheiro?" Então ela lembrou do absurdo que o dia anterior fora. O quarto, a menininha, a janela... Antes que o desespero brotasse em seus olhos, Alice notou que uma espécie de motocicleta estacionara bem na sua frente.
 
"Quer ajuda, moça?"
September 06

Alice e a floresta

Era difícil respirar. O coração batia tão rápido que Alice sentia vertigens. Sentia o rosto quente e o suor escorrendo pela testa. Mas mesmo assim ela continuava correndo. Correndo. Seguindo em frente, para bem longe do quarto. Sempre em direção ao coração da floresta escura.

Já era noite fechada quando Alice finalmente conseguira sair. Os joelhos estavam ralados de tantos tombos na tentativa de imitar o que a menina tinha feito. Alice dava distancia da janela, corria e pulava, sem tocar na janela, e todas as vezes caía de joelhos na madeira dura do chão do quarto.

Mas uma das tentativas deu certo. Talvez por ter sido a mais desesperada. Talvez por ter sido a única vez que não pensou em nada. Por ter sido a vez que Alice se entregou à queda. Foi a vez que ela pulou sem medo de se machucar. Que o desespero era tão grande que nada mais importava, somente a tentativa. Continuar tentando. E quando ela sentiu que seus joelhos tocavam a grama do lado de fora, levantou-se rapidamente e virou-se para ver seu cativeiro sob uma outra perspectiva.  E como era diferente ver aquele quarto pelo lado de fora! "Não me parece nem um pouco sombrio," pensou Alice, "muito menos um cativeiro." Na verdade, o que se podia enxergar com a débil luz da lua era uma janela na parede lateral do que parecia ser uma casinha branca. Soltando um breve suspiro e com um sorriso nos lábios ela começou a correr o mais rápido que conseguia.

E agora, com o coração explodindo no peito, ela corria sem rumo. A verde campina tinha se transformado em um conjunto de vultos negros iluminados por uma lua cheia. A paisagem bucólica tinha dado lugar a um cenário ameaçador. E, sem se importar com nada, Alice se embrenhava cada vez mais entre as árvores, numa tentativa inconsciente de colocar entre ela e o quarto o maior número de obstáculos possível.

July 31

Alice e o pôr do sol

Absurdo! Aquilo tudo era simplesmente absurdo. A cabeça doía só de tentar encontrar um argumento lógico para tudo aquilo. Aquele era definitivamente um dia louco.

Olhando bem fundo nos olhos inquisidores de Dadá, Alice decidiu desistir de entender as leis daquele mundo torto em que adentrara sem saber porquê. Era demais. Como uma menina simplesmente imagina que está em um lugar e aparece ali como num passe de mágica? Aquilo era impossível, Alice se negava a acreditar. Deixara de crer em magia e contos de fada muito cedo, na idade em que as meninas ainda sonham com unicórnios e arco-íris com potes de ouro.

"Menina, me fala a verdade!", esbravejou. Agarrando os ombrinhos frágeis de Dadá, ela sacodia a criança. "Isso é impossível! Você vai me dizer a verdade agora. Como você entrou aqui? Onde está a porta? Anda menina, fala!"

Ela queria respostas. E ela as queria imediatamente.

"Não tente me enganar com essa conversa de contos de fada, menina! Eu sou gente grande e gente grande não acredita em contos de fada. Eles não existem!"

"Meu nome não é menina!" respondeu Dadá, levantando-se e enxugando as lágrimas, produto do susto que levara com a reação de Alice. "Eu vou embora e vou deixar você aqui. E se a minha mãe mandar eu te trazer mais comida eu não venho!" Limpando seus joelhinhos, Dadá acrescentou: "Minha mãe tinha razão, você é uma velha!"

E Alice não teve tempo de segurar a menina quando ela simplesmente pulou a janela e saiu correndo pelo campo verde que já escurecia com o pôr do sol.

June 23

Alice e Dadá

Sentanda na cama, bandeja no colo, Alice devorava sua primeira refeição desde que acordara naquele quarto. Mordia um pedaço de pão com manteiga e queijo, bebia um generoso gole de café, arrancava do cacho duas uvas vermelhas e as enfiava na boca. Outro gole de café. Enquanto mordia mais um bocado do pão, olhava para o bolo de chocolate e sua calda brilhante. Outra uva. Alice comia com a voracidade e a pressa de quem não tem certeza se terá outra refeição. Com a boca cheia, meio mastigando e meio engolindo, Alice conseguiu dizer:  "Quem é você?"

A menininha, que até aquele momento estava de pé, observando a dinâmica voraz entre Alice e o conteúdo da bandeja, levantou os olhos. "Encantadora, essa criaturinha" pensou Alice. A menininha tinha a cabeça cheia de cachinhos cor de mel. Vestida de blusinha branca com um grande peixe azul estampado e short da mesma cor, estava descalça. Devia ter no máximo uns cinco anos. Olhos da cor dos cachos e cheios de inteligência. Alice engoliu mais um pedaço de pão e repetiu: "Anda menina, quem é você?"

A menininha sorriu e respondeu: "Meu nome é Dadá, eu tenho seis anos e gosto de bolo de chocolate. Me dá um pedaço?"

Alice cortou com os dedos um pedaço e o entregou à menininha. Lambeu os dedos sujos de calda e continou: "Como você veio parar aqui? Como eu vim parar aqui? Como é que se sai daqui? Eu quero ir embora!"

A menininha, com metade do pedaço de bolo na boca, deu um sorriso cheio de chocolate nos dentes. Terminou calmamente de mastigar, engoliu e, com semblante sério, disse, num tom autoritário:

"Falar de boca cheia é feio! Minha mãe falou que eu sou quase uma moça e não posso falar de boca cheia. Você que já é grande falou de boca cheia! Sua mãe não te falou não? Se você quiser trocar de mãe, pode ficar com a minha, ela vai te ensinar um monte de coisa, até como comer de boca fechada e não falar de boca cheia."

Alice afastou a bandeja do colo, desceu da cama e ajoelhou-se em frente a Dadá, pegou suas mãozinhas miudas e perguntou: "Dadá, você lembra como entrou aqui?"

Dadá sentou-se no chão e do bolsinho de seu short azul tirou um giz. Alice seguiu sua pequena anfitriã e também cruzou as pernas, sentando-se. Enquanto desenhava um círculo na madeira do chão, Dadá começou sua história:

"Eu 'tava na minha casa, brincando com a minha irmãzinha. Eu tenho uma irmãzinha menor que eu, acredita? A gente 'tava brincando de correr. Eu adoro correr e eu sempre ganho porque a minha irmã é muito pequena. Sabia que é ela que colocou o meu nome de Dadá? Aí a minha mãe me chamou e eu fui na cozinha onde ela 'tava. Ela me perguntou se eu queria brincar de chapéuzinho vermelho e levar uma cesta de guloseimas pra vovózinha. Toda vez que a minha mãe fala guloseimas eu rio, é uma palavra engraçada,  né? A minha irmãzinha também rí e repete, de chupeta na boca, 'guloxeima'. Aí a gente rí juntas e a minha mãe fica brava e depois ri junto com a gente. A minha mãe é a moça mais bonita do mundo, sabia? Quando eu crescer, ela me falou que eu vou ficar igual a ela."

O desenho no chão começava a tomar forma de um sol sorrridente, desses típicos em desenhos infantis, com olhos, nariz e sorriso grande. Dadá prosseguiu:

"Aí eu perguntei qual vovózinha, porque eu tenho duas, né? Todo mundo tem duas vovós. E a minha mãe disse que era outra vovózinha, uma de brincadeira. E eu fiquei toda contente porque eu adoro brincar de faz de conta. Aí a minha mãe falou: 'Princesa, vai até a varanda e imagina com muita vontade que você vai na casa da vovó entregar essa bandeja, tá? Só cuidado pra sua irmã não ver. Ela é muito pequenininha e pode incomodar a vovó, que é velhinha.' Aí eu fiz o que a minha mãe mandou e quando eu abrí o olho você tava ali na janela. Aí você virou e me olhou com um olho tão arregalado!"

Dadá ajoelhou-se e, quase nariz com nariz, tão perto de Alice que podia sentir o cheiro de bolo de chocolate no hálito de Dadá, acrescentou: "Será que eu vim parar no lugar certo? Você não é vovó nem é velhinha, nem tem cabelo branco!"

May 20

Alice e a fome

Com a testa na madeira lateral da janela, olhando para a paisagem iluminada na sua frente, Alice já estava cansada de tentar sair do quarto. Já havia perdido a conta de quantas vezes tentara pular a janela. Também já havia perdido a conta de quantas vezes procurou uma porta de saida, de quantas vezes abriu o armário, olhou debaixo da cama, dentro do baú, atrás do biombo. Cansara de tatear as paredes, de rezar, de gritar.

Mesmo assim, olhar para aquela paisagem imutável trazia alguma calma ao coração de Alice. Uma calma estranha, contemplativa, entorpecedora. Depois do desespero, foi para a janela que Alice olhou. Fora ali que a idéia de que estava presa no quarto começara a ganhar forma. Na janela.

Alice não sabia quanto tempo ficara de pé olhando a paisagem, mas seus pés doiam e os joelhos reclamavam. No meio de suas divagações, ela reparou que estava faminta. A fome veio como um soco.

"Eu vou morrer de fome neste maldito quarto", pensou. "Eu vou morrer de fome, porque não tenho como sair... Meu Deus, eu não tenho como sair!" E ao mesmo tempo em que seus olhos enchiam de lágrimas novamente, seu nariz captou o cheiro doce e inconfundível de café.  Enxugando as lágrimas, ela virou para o quarto, agora mais iluminado com o sol forte da meia tarde. Os mesmos olhos de Alice, inchados de tanto chorar, se expandiram até formarem dois circulos redondos de espanto conforme Alice constatava que não estava sozinha no quarto.

"Eu trouxe café, frutas, bolo de chocolate, pão e queijo..." disse a menininha, "Eu sei, desculpa, faltou o suco de laranja, mas é que ficou muito azedo!", acrescentou sorrindo.

 
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